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O cronista do concreto

 (Delman Ferreira) O velho Solar das Acácias, onde ficava a pensão, era um labirinto de escadas alarmistas e paredes indiscretas. — Cuidado, meu filho — alertou D. Elvira, dona da pensão — aqui, as paredes têm ouvidos. Júlio apenas fitou o assoalho de tábuas, descrente. Mas a solidão do quarto dilatava cada ruído. Sem ter com quem trocar impressões, começou a desconfiar das paredes. Às vezes tinha certeza de ouvir passos, risos, soluços, vindos de um não lugar. Brigas abafadas, preces suspensas. Vidas escorrendo pelas frestas. Só o Sr. Hector parecia alheio a tudo. Sentava-se sempre no mesmo canto da varanda, com um velho caderno espiral equilibrado no joelho. Observava, anotava, voltava ao silêncio. Nunca interferia. Júlio sonhava ser escritor. Intrigava-se com aquele homem. O que tanto registrava? Por quê? Criou coragem e puxou conversa. Percebeu um leve sotaque francês. Mas a conversa nãpo fluiu com ele esperava. Hector só ouvia, pouco interagia. Certo dia, uma presença nova mud...

Silêncios antigos

 (Delman Ferreira) O pai do pai do pai do Bentinho foi escravizado. Fazia de tudo. Sofria de tudo. Jamais saiu da fazenda, como parte da terra. O pai do pai do Bentinho, filho de escravizados, broto do mesmo barro. Fazia de um tudo. Tangia gado, plantava, colhia, moía, limpava. Mantinha o cercado.  O pai do Bentinho, mesmo liberto, sem encontrar alternativa, também foi ficando por ali. Fazendo de um tudo. Vivia das sobras da fazenda. Sobras de comida e de roupa. Sobras de coisas que não serviam mais para a Casa Grande. Sobras de tudo, menos de vida. Bentinho não teve oportunidade para conhecer outro destino. A vida por ali corria sempre igual, como roda d’água que gira sem sair do lugar. Seguiu fazendo de um tudo. Era Bentinho pra lá e Bentinho pra cá. Nada acontecia sem Bentinho benzer. Os sinhozinhos gostavam muito do Bentinho. Do pai do Bentinho. Do pai do pai do Bentinho... — Nós os consideramos como gente da família. Comem e vestem do que comemos e vestimos...

Cheiros, heróis e sonhos não envelhecem

  (Delman Ferreira) Perto de casa, a padaria. Darcy acordava às quatro da manhã, quando a mãe precisava saltar da cama para ir trabalhar. Demorava-se, virando de um lado a outro, embevecido, desfrutando o aroma de pão assando. Os amiguinhos sonhavam com picolé, balas ou chocolate. Ele, com o cheirinho do Pão do Ribeirão, o melhor da cidade. Demorava-se na cama aguardando o chamado da avó para caminharem até a escola. Professora primária no Grupo Escolar Maria Clara. Darcy era um pirralho de 5 anos incompletos quando ela passou a levá-lo à escola. Ficava no fundo da sala brincando com a cartilha. Aprendeu a ler e escrever bem antes de ter idade para ser matriculado. A mãe, empregada doméstica. Algumas vezes o levava ao trabalho. Darcy detestava. Preferia a escola. Porque enquanto a mãe se esfalfava na labuta de cuidar da casa, ele não podia sair da cozinha. Pelo vão da porta, espiava os filhos da patroa. Brinquedos que nem imaginava existirem. Percebia a alegria dos meninos, mas...

Aos 87 anos, fugiu para respirar

  (Delman Ferreira) aos 87 anos Olício fugiu de casa        não fazia sentido   esperavam dele que fosse tal como esperavam sem nunca ser como queria        fugiu de casa   tanta vida ainda por desafiar não ia ficar ali apoitado        não fazia sentido   esperar que esperassem dele o que ele esperava que esperassem dele        fugiu queria respirar       R.I.T.A. P erfeita Rita, me dê licença.        Rita pode ser Lúcio, ou Dona Maria, ou Zé Potoca. Será quem eu quiser ou precisar a cada momento. Pode ser uma companhia para jogar dominó, ou baralho, até conversa fora. Cozinhar minha comida nas horas certas, nas doses e medidas exatas. Limpar a casa na hora de limpar a casa. Sair para caminhar no momento certo do sol. Conversar sobre o tempo, ou as últimas descobertas da medicina, os impressionantes avanços da física quântica — ou, quem sabe, o resultado...

Buquê de flores

(Delman Ferreira)   — Você não me assume. Tem vergonha de mim? É por causa da minha cor? Por que sou pobre e trabalho atrás desse balcão? Vozerio alto. Música ao vivo. Gente circulando. Gente rindo.  Gente que pede mais um chopp. O mundo inteiro parecia falar ao mesmo tempo. Caixa de pedidos.  Pilha de garrafas. Por trás do caos, duas vozes nervosas tentam se entender. —  Montanha de copos. Não consigo te escutar — Fernando tenta brincar para aliviar. — Nunca vamos juntos a lugar algum. Só pode ser por vergonha. Eu assusto as pessoas? — Não é assim, você sabe. — Afastando uma garrafa, Fernando tenta alcançar-lhe o rosto e fazer um carinho, prender uma mecha de cabelo rebelde. — Eu queria só um cinema, um passeio, um café na rua. Fernando tenta se explicar, por trás das garrafas, dos copos, das vozes.  — Tudo a seu tempo. Eu te prometo que vamos passear muito, viajar, conhecer o mundo. Me dá um tempo. — Eu sei que tu também sonhas com isso.  Assistir a uma s...

Pra que serve um cachorro?

  (Delman Ferreira) — Para que serve um cachorro? — medita o poeta Mário Quintana. — Serve pra gente falar sozinho — filosofa Quintana.   Inticado pelo poeta, eu me pergunto. — Pra que serve um cachorro?   Serve para nos levar a passear. Basta olhar essa gente feliz, levada de um lado para outro por seus cães. Praças, jardins, ruas, trilhas. Caminhando devagar. Observando os arredores. Saudando os passantes. Permitindo-se rir.  Cachorros servem para nos conectar com os detalhes do mundo. Meus filhos, naquela fase em que toda criança deseja um bichinho de estimação, sonhavam ter um cachorrinho. Queriam porque queriam. Eu já me imaginava dando comida, limpando cocô, banhos, vacinas. Ou seja, eles iam amar o amiguinho até a vírgula. A parte chata sobraria para mim. — Não, de jeito nenhum. Nem pensar. Eu era um dos líderes de uma greve na CELESC. Concentração na frente do prédio da administração, ali no Itacorubi. De repente, alguém encontra um cãozinho jogado no lixo. R...

Amo o amor dos marinheiros

  amo o amor dos marinheiros que amam e se vão (Pablo Neruda) Beija como se o mundo fosse acabar no próximo porto. Navega entre os continentes como quem dança entre sonhos — leve, sorridente e sempre de partida. A voz tem o timbre das ondas. Riso fácil dos que sabem partir antes que seja tarde.  Ama as mulheres — negras, brancas, amarelas, morenas, ruivas, loiras, mestiças — com a mesma febre breve de quem não pensa fincar âncora. Parte como se nunca tivesse chegado. Em cada recanto portuário, cada enseada esquecida pelo mapa, deixa atrás de si uma história interrompida à espera de novo tempo e nova vida. Ciganos, negros, indígenas, asiáticos, eslavos. Olhos puxados, cabelos crespos, pele clara, sotaques diversos. Os filhos são tantos, tão múltiplos, impossível saber quantos. Não os cria, mas exige amor incondicional. Deu-lhes a vida, devem ser gratos. O nome de batismo é Javier. Mas em cada porto empresta seu corpo a identidades fluidas. Um artesão de momentos. Não mente,...

Uma professora negra

  (histórias de uma Florianópolis conhecida por poucos) (Delman Ferreira)   — Ah, meu filho, naquela época não era fácil namorar. Moça de família não saía de casa sozinha. Era sempre com a mãe, a avó, algum irmão, até o pai. Nunca ficava sozinha com um rapaz.  Ester abre o sorriso largo quando relembra. Em meados da década de 1950, nos finais de semana ou feriados, as famílias saíam para passear na Praça XV. Iam à missa, seguiam as procissões, ou simplesmente passeavam, subindo e descendo em volta da praça. Era o footing.   Durante os passeios, as jovens sempre conseguiam um jeito de dar umas escapadinhas, espiar os rapazes que perambulavam pela praça. A emoção transbordava quando ocorriam trocas de olhares ou, principalmente, quando conseguiam namorar escondido. Ester não disfarça uma ponta de vaidade. — Ao passar com as amigas, eu arrancava uns suspiros de admiração.  Havia uma tradição, os negros subiam e desciam por um lado da praça, enquanto o...

Paralelas

 (Delman Ferreira) Clínica e Maternidade Espaço Amarilis da Mulher. Assistida por equipe especializada em parto humanizado, no dia 4 de dezembro de 2025, às 10 horas e 23 minutos, nasce Maria. Hospital Universitário. Assistida por plantonistas, no dia 4 de dezembro de 2025, às 10 horas e 23 minutos, nasce Maria. Alameda Beira Mar.  Quarto de bebê preparado com esmero ao longo de meses revela, em cada detalhe, o carinho e a expectativa pela chegada de Maria. Ambiente limpo e harmonioso, como se estivesse suspenso no tempo, aguarda o primeiro choro, o primeiro suspiro, o primeiro olhar de quem já é amada muito antes de chegar. Dois quilômetros acima, altos da Ladeira do Antão. Casebre pequeno — um cômodo dividido por lençóis amarrados em fios — aguarda Maria. O chão é de cimento batido, as paredes mostram sinais do tempo, com pintura manchada pela umidade. Uma caixa de madeira será o berço de Maria.  Maria da Alameda é filha de família estruturada. O pai,...

Crochê, macramé e paixões

(Delman Ferreira) Quando se viram pela última vez, urravam e tentavam arrancar os olhos um do outro. — Fascista! — Comunista! Trinta anos depois, por acaso — ou castigo — entraram no mesmo bar. Entreolharam-se ressabiados, com a timidez de quem já foi inimigo e agora se sente ridículo por isso. Por fim, um chamou o outro para sentarem juntos. Afinal, já faziam trinta anos. Trinta. — Como vai? — pra cá. — O que tem feito? — pra lá. Bateram os copos. Sacudiram o gelo. Engoliram o orgulho. Foram quebrando o sem jeito. Vieram as preliminares. — Quanto tempo! — Pois é, quanto tempo! — O que você faz agora? — Professor. História. — Tá brincando… Eu também sou professor! Economia. No IF lá da Palhoça. — ' Xpressionante ! Hahaha! Risos. Mais uma rodada. — Você casou? — Casei. Separei. — Jura? Eu também! Cinco anos já. — A vida, né… pelo menos mantenho boa relação com a ex. — Eu também! Tô sempre com os filhos. Já tenho até netos! — Eu também! Curtiram as fotos dos ne...