Silêncios antigos
(Delman Ferreira)
O pai do pai do pai do Bentinho foi escravizado. Fazia de tudo. Sofria de tudo. Jamais saiu da fazenda, como parte da terra.
O pai do pai do Bentinho, filho de escravizados, broto do mesmo barro. Fazia de um tudo. Tangia gado, plantava, colhia, moía, limpava. Mantinha o cercado.
O pai do Bentinho, mesmo liberto, sem encontrar
alternativa, também foi ficando por ali. Fazendo de um tudo. Vivia das sobras
da fazenda. Sobras de comida e de roupa. Sobras de coisas que não serviam
mais para a Casa Grande. Sobras de tudo, menos de vida.
Bentinho não teve oportunidade para conhecer outro
destino. A vida por ali corria sempre igual, como roda d’água que gira sem sair
do lugar. Seguiu fazendo de um tudo. Era Bentinho pra lá e Bentinho pra cá.
Nada acontecia sem Bentinho benzer.
Os sinhozinhos gostavam muito do Bentinho. Do pai
do Bentinho. Do pai do pai do Bentinho...
— Nós os consideramos como gente da família. Comem e vestem do que comemos e vestimos.
Bentinho casou. Tainá era calada, mas guardava no peito uma brasa abafada, esperando apenas um
sopro. Fez de tudo até conseguir ver o filho estudando.
— Pelo menos um da família vai conhecer as letras.
Com o professor Freire, o filho de Bentinho
aprendeu que trabalho tem hora. E descanso também. Conheceu palavras
novas: férias, salário, documento.
Ensinou tudo isso para os pais.
Bentinho ouviu o menino. Ficou quieto por um tempo,
mexendo o chapéu entre as mãos.
Tainá ficou matutando.
— O menino estuda. Ele sabe das coisas. Se ele diz
que temos direito, então temos direito.
Tainá sempre sonhou com coisas miúdas que nunca
vinham. Um vestido escolhido por ela, um domingo livre, um silêncio sem
ordens. Sonhava até poder ir no médico. Andar pela cidade só ela e Bentinho.
— O menino estuda — repetia, cutucando o marido
para falar com o patrão.
Bentinho rompeu o silêncio de gerações. Subiu a
ladeira rumo à Casa Grande com as pernas tremendo. O chão parecia puxar seus
pés de volta.
Foi recebido na despensa, entre a cozinha e as baias. Os cavalos, inquietos, bufavam e escavavam o chão com as patas. O ar cheirava a esterco e banha fervente.
O patrão acariciava um cavalo, gestos calculados, sem tirar os olhos de Bentinho. O mesmo olhar de sempre. Frio, nunca passivo.
Nervoso, Bentinho tentou repetir o que o filho tinha explicado.
— Não é certo a gente não ter um pagamento no fim
do mês. A gente podia tirar uns diazinhos pra descansar.
O silêncio endureceu no ar. O patrão continuou
quieto. Batia ritmado com um pequeno chicote contra a lateral da bota.
— Cuidado. Esse menino anda botando ideias
atravessadas na sua cabeça, Bentinho.
Bentinho lembrou do dia da matrícula, quando perguntaram
pelos papéis. O menino só tinha a certidão do padre.
— Eu também queria ter documentos. Um papel com meu
nome — disse num fio de voz.
Uma acauã cortou o ar, gargalhando seu canto de mau
agouro.
Bentinho foi enxotado.
— Se voltar aqui com essas ideias, vai ser posto
pra fora da fazenda.
Sinhá sacudiu a cabeça.
— É isso que dá tratar essa gente como se fosse da
família.
O filho de Tainá e de Bentinho estudou.
Desarmonizou.
Mexeu
com silêncios antigos.
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