Será o Benedito?
(Delman Ferreira) — Passados tantos anos, já com meus cabelos brancos, ainda ouço a voz do velho Anacleto, como um chamado. Na vila de São Romualdo, ninguém sabia ao certo quando começara aquela mania de invocar o nome de Benedito sempre que algo dava errado. Quando a colheita atrasava, o filho respondia torto ou o rio enchia antes da hora, lá vinha alguém resmungando: — Mas será o Benedito? De tanto se repetir, ficou natural. O motivo se perdeu no tempo. Até que um dia o velho Anacleto, o mais teimoso guardião da memória, resolveu contar a história como os anciãos passaram para ele. A noite cintilava profunda. Tudo era silêncio, menos o velho Anacleto, que falava com a voz raspando no escuro. — Shhh..., quietos. Essa história não gosta de barulho. Os corpos se juntaram, sombras dentro de sombra. Eu, menino, perguntei: — É a do Benedito, tio Anacleto? O velho sorriu sem mostrar dentes. — Ele mesmo… Benedito Meia-Légua foi homem de carne, coragem e cicatrizes. Nasce...