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Será o Benedito?

 (Delman Ferreira) — Passados tantos anos, já com meus cabelos brancos, ainda ouço a voz do velho Anacleto, como um chamado. Na vila de São Romualdo, ninguém sabia ao certo quando começara aquela mania de invocar o nome de Benedito sempre que algo dava errado. Quando a colheita atrasava, o filho respondia torto ou o rio enchia antes da hora, lá vinha alguém resmungando: — Mas será o Benedito? De tanto se repetir, ficou natural. O motivo se perdeu no tempo. Até que um dia o velho Anacleto, o mais teimoso guardião da memória, resolveu contar a história como os anciãos passaram para ele. A noite cintilava profunda. Tudo era silêncio, menos o velho Anacleto, que falava com a voz raspando no escuro. — Shhh..., quietos. Essa história não gosta de barulho. Os corpos se juntaram, sombras dentro de sombra. Eu, menino, perguntei: — É a do Benedito, tio Anacleto? O velho sorriu sem mostrar dentes. — Ele mesmo… Benedito Meia-Légua foi homem de carne, coragem e cicatrizes. Nasce...

Além do esplendor

 (Delman Ferreira) O sol batia forte no calçamento de pedra, mas dentro do museu o ar era gélido, filtrado por um sistema de climatização invisível e silencioso. Danilo acompanhava o grupo de amigos com um sorriso protocolar, típico de quem aceita um passeio apenas pela conveniência da companhia. O M usée de la Haute Couture  erguia-se com a solenidade de um templo, vidro e mármore, flores e folhagens, refletindo uma ideia de eternidade cuidadosamente polida.  Entrou sem expectativa, conduzido pelo fluxo lento dos visitantes, todos atentos à promessa de beleza suspensa no tempo. Os primeiros corredores exibiam vestidos do século XIX, engomados e rígidos como armaduras. Danilo passava por eles com indiferença, lendo mecanicamente as plaquinhas:  "Vestido de baile, 1867. Seda, brocado de fios metálicos, renda de Chantilly aplicada à mão." Foi na sala dos anos 1920 que o desconforto começou, sutil como um fio desfiado. Um vestido de franjas de cristais cintilava s...

Praia do Riso

  (Delman Ferreira) O mar aguarda em poética calma enquanto o Nordestão se retira para a entrada do Vento Sul, sempre visceral.  O céu, azul de Leste a Oeste e de Norte a Sul, reflete a expectativa da Praia do Riso. Hoje será a vez do Deivide.  Os meninos mais velhos já têm tudo combinado. Cada um deles havia passado pelo mesmo rito. Aproveitam a calma na virada da maré, colocam o batelão na água. Feliz por ser chamado para pescar com os mais velhos, Deivide senta na proa, com todos os seus quase oito anos. Desequilibra-se, mas controla rápido. Não vai deixar o nervosismo estragar esse momento. João, sarará, alto para seus 11 anos. Cesar, franzino, mãos e pés ligeiros. Entreolham-se e empurram o batelão para o fundo. Com agilidade e equilíbrio, saltam para dentro do estreito barco. I nspirados pela calma da maré,  remam com suavidade. Conversam. Deivide ri. A tensão vira gargalhada. Cada vez mais longe da praia. O orgulho de ter sido chamado pelos mais ve...

O poder roubado dos deuses

 (Delman Ferreira) Há sete luas, antes do sol nascer, em silêncio como quem foge, Odé saiu com os outros homens para caçar. Iriam mais longe, atrás de caças maiores, rastros mais raros. Prometiam voltar na lua seguinte. As mulheres aprenderam a não esperar. Dividiam o dia entre buscar água, vigiar e espantar predadores. Comiam os restos da caçada anterior. À noite, alimentavam o fogo e embalavam os erês com histórias antigas — histórias de homens heróis e deuses generosos. O silêncio foi ocupando o lugar das promessas. Havia sol e chuva. Havia ventos e riacho com água. Havia o medo. E sempre muita fome. Para acalmar a fome e os gritos dos erês, Iya decidiu pegar frutos de árvores. Experimentou uma, outra e outra. Até encontrar aquelas que deixavam as crianças com a cara encharcada de risos. Depois, sentavam-se ao redor do fogo para catar umas às outras em silêncio.  Aprenderam a colher, a sentar, a comer sem pressa. O medo foi sendo trocado por histórias. As crianças lambiam o...

A ruína de Brisal

 (Delman Ferreira)           Brisal já fora uma terra vibrante. Havia cafés literários, feiras de poesia, saraus aveludavam as noites, crianças embaladas à voz de histórias.  Ninguém sabe dizer quando os livros começaram a pesar. Primeiro veio o gracejo. — Ler dá sono. Depois, o carimbo marginalizante. — Poeta é quem não tem o que fazer. O riso, aos poucos, perdeu a inocência. Quem andava com um livro debaixo do braço virou alvo. — Olhem o cabeça de papel! — Vai tropeçar no mundo real! As páginas empoeiraram. Os jovens,  corcundas diante de telas fugazes,  preferiam pílulas de  lobotomia brilhante. As mochilas se esvaziaram de histórias. A interpretação deu lugar aos memes. Livros tornaram-se estorvo.   Professores que insistiam na leitura passaram a ser tratados como perdedores — relíquias inúteis. Em uma geração, a leitura tornou-se obsoleta. Escrever? Rabiscos sem sentido. Uma noite,  a bateria descarregou. E ntão,...

Praeiudicium

(Delman Ferreira) — Não tenho amigos negros, gays, indígenas, feministas ou esquerdistas... A luz trepidou. Bomba de incontáveis megatons explodiu as redes sociais. Xingamentos instantâneos digitados entre um piscar e outro, cancelamentos decretados por perfis inominados, marchas virtuais de protesto. Socialaites enfurecidas, influencers ensandecidos. Comentaristas espumam argumentos reciclados. Suas excelências exigem condenação perpétua. Ungidos conclamam exércitos dos céus e dos infernos. Gente que atravessa a rua quando vê um pobre, um negro ou alguém de vermelho,  aproveita   para purgar os pecados. Quando baixou a poeira radioativa, ele conseguiu completar a frase. — ...meus amigos são pessoas!

Carrinho no presépio

 (Delman Ferreira) — Deus é o pai de todas as crianças. Todos somos filhos de Deus — dizia Irmã Bernardete, professora de catecismo. Aquela revelação entrou pelos ouvidos de Daniel e escorregou direto ao coração. Depois, explodiu e se transformou num sorriso, como fogos de artifício. — Então, também tenho pai! Filho de mãe solteira, Daniel sentia falta de um pai. Todos os amiguinhos falavam do pai ensinando, ajudando, defendendo. E dando presentes legais. Morria de inveja quando ouvia algum amigo contar uma bronca. Sonhava com um pai brigando e brincando. Se Irmã Bernardete diz, deve ser verdade. Ela é freira, não ia mentir. Eu também tenho pai para me proteger. Até pedir brinquedo de presente. Chega o Natal, Daniel é só expectativa. — Eu quero um carrinho de controle — sonhava Daniel. Escreveu um bilhete e entregou para Irmã Bernardete. Pediu para entregar ao pai. Ela saberia como falar com ele. Sonhou, noite após noite. Quase não dormia, só imaginando a reação dos amigos e as cor...

Desvendando um grande mistério

  (Delman Ferreira) Brincava com Ben, meu neto de 4 anos. Voar como o Homem-de-ferro. Eu o pegava no colo, meus braços segurando o peito e as pernas, cabeça para a frente, pés para trás, e jogava na cama num voo magistral, tal qual um super-herói. A mãe não sabia se ria junto ou se salvava o filho do avô irresponsável. A cama gemia, mas aguentava firme. A cada vôo sensacional, nós dois desatávamos o risador. Ele se pendurava no meu pescoço e, daquele jeito irresistível, gritava: — De noooovo! — Aquela energia inesgotável. Até perceber que ele estava com vontade de fazer xixi, mas não queria parar a brincadeira. — Ben, tás com vontade de fazer xixi? Vai lá fazer xixi. — Não, não tô com vontade. — Sabia que super-herói também faz xixi? Ele vai voando até o banheiro e faz xixi. — Nãããooo, super-herói não faz xixi. — Claro que faz, ele bebe água e come comida, então ele faz xixi e coco. — Nãããooo, ele não come e não bebe água. — Claro que come, senão como é que ele fica forte? — Vô, tu...

O pecado de Adão

   (Delman Ferreira) Aprendeu a andar.  O mundo passou a não ter tamanho. O quintal.  Galinhas e latidos. Carrinhos. Estripulias. A rua.  Frutas do vizinho. Bombinhas. Bola. Passarinhos. Viver era explorar horizontes. Mas vieram as aulas de religião. Adão descobriu-se nu.  O maior pecador do mundo.

O cronista do concreto

 (Delman Ferreira) O velho Solar das Acácias, onde ficava a pensão, era um labirinto de escadas alarmistas e paredes indiscretas. — Cuidado, meu filho — alertou D. Elvira, dona da pensão — aqui, as paredes têm ouvidos. Júlio apenas fitou o assoalho de tábuas, descrente. Mas a solidão do quarto dilatava cada ruído. Sem ter com quem trocar impressões, começou a desconfiar das paredes. Às vezes tinha certeza de ouvir passos, risos, soluços, vindos de um não lugar. Brigas abafadas, preces suspensas. Vidas escorrendo pelas frestas. Só o Sr. Hector parecia alheio a tudo. Sentava-se sempre no mesmo canto da varanda, com um velho caderno espiral equilibrado no joelho. Observava, anotava, voltava ao silêncio. Nunca interferia. Júlio sonhava ser escritor. Intrigava-se com aquele homem. O que tanto registrava? Por quê? Criou coragem e puxou conversa. Percebeu um leve sotaque francês. Mas a conversa nãpo fluiu com ele esperava. Hector só ouvia, pouco interagia. Certo dia, uma presença nova mud...