Praia do Riso

 

(Delman Ferreira)

O mar aguarda em poética calma enquanto o Nordestão se retira para a entrada do Vento Sul, sempre visceral. 

O céu, azul de Leste a Oeste e de Norte a Sul, reflete a expectativa da Praia do Riso. Hoje será a vez do Deivide. 

Os meninos mais velhos já têm tudo combinado. Cada um deles havia passado pelo mesmo rito. Aproveitam a calma na virada da maré, colocam o batelão na água.

Feliz por ser chamado para pescar com os mais velhos, Deivide senta na proa, com todos os seus quase oito anos. Desequilibra-se, mas controla rápido. Não vai deixar o nervosismo estragar esse momento.

João, sarará, alto para seus 11 anos. Cesar, franzino, mãos e pés ligeiros. Entreolham-se e empurram o batelão para o fundo. Com agilidade e equilíbrio, saltam para dentro do estreito barco. Inspirados pela calma da maré, remam com suavidade. Conversam. Deivide ri. A tensão vira gargalhada. Cada vez mais longe da praia.

O orgulho de ter sido chamado pelos mais velhos era paupável. Grande demais para caber no medo. A entrada do Vento Sul prometia mar agitado. O velho batelão, estreito e arisco, assustador para quem não era íntimo.

Afastaram-se uns cem metros. Colocaram as iscas nos anzóis. Jogaram as linhas. Contam histórias e riem. Deivide, cada vez mais solto. O mar, antes um espelho, vai se tornando encapelado. 

Um dos mais velhos diz que sua linha prendeu, vai ser preciso puxar. Debruça na borda. O batelão começa a balançar. O Vento Sul surra a borda. Um remo escapa e cai n’água. Fingem rir. Balançam o batelão cada vez mais forte.

Deivide sente uma ameaça de choro subir pela garganta. Não, não pode jamais chorar. Iriam inticar com ele pelo resto da vida. Nunca mais seria convidado para pescar. Nunca mais futebol. Nunca mais roubar frutas. Preferível morrer. Rápido, engoliu a ameaça de meninice. Encheu-se de coragem. Escancarou um riso que não sentia e também passou a balançar a borda do barco.

Até que se deu o esperado, planejado pelos mais velhos. O batelão virou. Fingindo tentar pegar o barco, os dois o empurravam cada vez mais em direção à praia, fora do alcance de Deivide.

O corpo afundou antes que o pensamento viesse. Mar gelado. Camiseta atrapalhando. Olhos ardendo. Respiração descompassada. Braços batendo. Água em golfadas pela boca. O sal queimando a garganta.

João Sarará se aproxima. Manda, aos gritos, que Deivide se acalme.

 — Calma! Para! Para! Agora, mexe as mãos e as pernas. Devagar. Não te apavora. Só deixa a água te segurar. Olha, faz igual eu tô fazendo!

A proximidade do mais velho trouxe tranquilidade para Deivide. Ao mesmo tempo, não conseguia alcançá-lo. Viu-se obrigado a mexer os braços e as pernas. Lembrou-se da primeira vez que jogou Totó pequenininho no mar.

A Praia do Riso estava logo ali, era só continuar mais um pouco.

— Nadando!

Deivide percebeu que estava nadando.

O mar, antes ameaça, agora era conquista. Orgulho tão intenso como o Vento Sul.

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