Além do esplendor
(Delman Ferreira)
O sol batia forte no calçamento de pedra, mas dentro do museu o ar era gélido, filtrado por um sistema de climatização invisível e silencioso.
Danilo acompanhava o grupo de amigos com um sorriso protocolar, típico de quem aceita um passeio apenas pela conveniência da companhia.
O Musée de la Haute Couture erguia-se com a solenidade de um templo, vidro e mármore, flores e folhagens, refletindo uma ideia de eternidade cuidadosamente polida.
Entrou sem expectativa, conduzido pelo fluxo lento dos visitantes, todos atentos à promessa de beleza suspensa no tempo.
Os primeiros corredores exibiam vestidos do século XIX, engomados e rígidos como armaduras. Danilo passava por eles com indiferença, lendo mecanicamente as plaquinhas: "Vestido de baile, 1867. Seda, brocado de fios metálicos, renda de Chantilly aplicada à mão."
Foi na sala dos anos 1920 que o desconforto começou, sutil como um fio desfiado. Um vestido de franjas de cristais cintilava sob a luz focada. A descrição dizia: "Vestido Flecha de Prata, usado por Josephine Mountbatten em 1924. Contém 3.842 cristais de strass costurados individualmente." Danilo imaginou, por um segundo, dedos ágeis e cansados, olhos ardendo sob a luz fraca de um ateliê, costurando cada um daqueles pequenos pontos de luz. Abanou a cabeça, dissipando a imagem.
Os séculos desfilam. Os olhos de Danilo se enchem de imagens que o museu não mostra. O desconforto se aprofunda.
Um vestido cor de vinho, do século XVII, bordado com pequenas pérolas.
— Quantos mergulhadores vasculharam as profundezas, os pulmões ardendo, os tímpanos estourando, para colher essas conchas do fundo do mar? Quantos morreram de embolia ou afogamento para que uma duquesa brilhasse à luz de velas? — perguntou-se.
Danilo sentiu um aperto discreto, quase educado, no peito. Ignorou. Aproximou-se de um vestido de noite, negro, longo, tão leve que parecia flutuar.
Quimono de seda pura, com uma garça bordada em fios de prata. A informação veio nítida à sua mente: os bichos-da-seda são fervidos vivos, milhares de larvas escaldadas para um metro de tecido.
Vestido de noiva do século XIX, com saia imensa, engomada, cintura de vespa. As costureiras — chamadas pequenas mãos — trabalhavam catorze horas por dia sob luz de gás. Muitas ficavam cegas antes dos trinta. A poeira da seda causava doenças. Sangravam pelos pulmões para que outras pudessem dançar.
Foi então que as perguntas começaram a surgir, primeiro tímidas, depois insistentes, como um zumbido que se recusa a cessar.
Quantas vidas foram sacrificadas para alguém pagar o preço de um vestido?
Tentou se concentrar na explicação da guia compenetrada, na costura invisível, no detalhe técnico. Mas as vitrines começaram a se turvar. Não via mais o brilho do tecido, mas as mãos que o haviam fiado, calejadas, trêmulas, anônimas. Quantos foram escravizados? Quantos ficaram doentes? Quantos tiveram os dedos mutilados para que aquele caimento perfeito existisse?
O ar pareceu rarefeito. As legendas, antes neutras, tornaram-se acusações. “Feito à mão” soava como sentença. “Exclusivo” ecoava como exclusão. Cada passo aprofundava o mal-estar, e Danilo percebeu que não era o corpo que falhava, mas algo mais íntimo, uma repulsa que subia do estômago à garganta.
Quis acompanhar o grupo, mas as perguntas cresciam, multiplicavam-se, batiam contra as paredes do museu e retornavam, agulhas finas, tesouras. Viu, por um instante, o salão se transformar numa cadeia longa e silenciosa, onde o luxo era apenas a ponta visível de um sofrimento cuidadosamente escondido sob camadas de seda.
Parou. Encostou-se a uma parede fria. Não suportaria o próximo vestido, nem o próximo preço implícito, nem a próxima história incompleta. Pediu desculpas a ninguém, desviou do fluxo e seguiu as placas de saída como quem foge de um incêndio sem chamas.
Olhou para o edifício imponente do museu, uma fachada elegante para um grande e silencioso cemitério de histórias não contadas.
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