Carrinho no presépio

 (Delman Ferreira)

— Deus é o pai de todas as crianças. Todos somos filhos de Deus — dizia Irmã Bernardete, professora de catecismo.

Aquela revelação entrou pelos ouvidos de Daniel e escorregou direto ao coração. Depois, explodiu e se transformou num sorriso, como fogos de artifício.

— Então, também tenho pai!

Filho de mãe solteira, Daniel sentia falta de um pai. Todos os amiguinhos falavam do pai ensinando, ajudando, defendendo. E dando presentes legais. Morria de inveja quando ouvia algum amigo contar uma bronca. Sonhava com um pai brigando e brincando.

Se Irmã Bernardete diz, deve ser verdade. Ela é freira, não ia mentir. Eu também tenho pai para me proteger. Até pedir brinquedo de presente.

Chega o Natal, Daniel é só expectativa.

— Eu quero um carrinho de controle — sonhava Daniel. Escreveu um bilhete e entregou para Irmã Bernardete. Pediu para entregar ao pai. Ela saberia como falar com ele.

Sonhou, noite após noite. Quase não dormia, só imaginando a reação dos amigos e as corridas com os carrinhos. Agora ele também ia ganhar um presente legal, igual aos amiguinhos.

Como faziam todos os anos, ele e a irmã menor ajudaram a mãe e a avó nas preparações. Capricharam na árvore e no presépio.  Bolas coloridas, estrelas, fitas, barba-de-velho, algodão imitando neve. Com o barro do quintal, fizeram animaizinhos para compor o cenário. Disputavam quem fazia os bonequinhos de barro mais bonitos.

Noite de Natal, Daniel não dormiu direito, até o trepidar das estrelas o fazia acordar para espiar a árvore da sala. Finalmente, a manhã o autorizou a levantar. Disparou até a árvore. Havia roupas, alguns brinquedos usados, doces. Procura. Revira os embrulhos. Encontra pequena caixa amassada. Seu nome escrito com letra de mãe.

Abre com o coração aos pulos.

Um carrinho. De plástico. Um fusquinha bege. Sem controle.

Decepção. Não era o sonho. Por que o pai não deu o carrinho de controle? Será que Irmã Bernardete não entregou o bilhete?

Segurou o fusquinha nas mãos e sorriu, tentando não chorar. Talvez o pai não tivesse entendido direito. Ou talvez o carrinho de controle estivesse a caminho.

Será que o pai ficou chateado porque ele brigou com a irmã quando estavam montando o presépio? Só pode ser castigo. Ele foi mau com a irmã e o pai castigou. Só pode ser isso.

Apertou o presente contra o peito. Com tanta força a ponto de amassar e caírem as rodinhas. A mãe, vendo de longe, não disse nada. Aproximou-se e, escondendo lágrimas incontroláveis, o abraçou pelas costas.

— Vai ver papai também tem pouco dinheiro, meu filho — sussurrou.

Daniel não respondeu. Com cuidado, colocou o carrinho na manjedoura, bem ao lado do menino.

Naquela noite não sonhou.

 


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