Silêncios antigos
(Delman Ferreira) O pai do pai do pai do Bentinho foi escravizado. Fazia de tudo. Sofria de tudo. Jamais saiu da fazenda, como parte da terra. O pai do pai do Bentinho, filho de escravizados, broto do mesmo barro. Fazia de um tudo. Tangia gado, plantava, colhia, moía, limpava. Mantinha o cercado. O pai do Bentinho, mesmo liberto, sem encontrar alternativa, também foi ficando por ali. Fazendo de um tudo. Vivia das sobras da fazenda. Sobras de comida e de roupa. Sobras de coisas que não serviam mais para a Casa Grande. Sobras de tudo, menos de vida. Bentinho não teve oportunidade para conhecer outro destino. A vida por ali corria sempre igual, como roda d’água que gira sem sair do lugar. Seguiu fazendo de um tudo. Era Bentinho pra lá e Bentinho pra cá. Nada acontecia sem Bentinho benzer. Os sinhozinhos gostavam muito do Bentinho. Do pai do Bentinho. Do pai do pai do Bentinho... — Nós os consideramos como gente da família. Comem e vestem do que comemos e vestimos...