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Bigode e artesão

(Delman Ferreira) Vaidoso, Manoel Cândido cultuava os bigodes como quem cuida de uma delicada e rara orquídea. Jamais um fio fora de ordem, alinhamento militar, harmonia musical, lado esquerdo e lado direito espelhos um do outro. Obra de arte. Nem o próprio Manoel ousava tocar. Uma única pessoa no mundo estava autorizada a retocar e modelar. O barbeiro Porfírio cuidava dos bigodes de Cândido como um artesão no domínio de seu ofício, um mestre perseguindo a perfeição. Naquela manhã de segunda-feira, como repetia todos os dias, Manoel investigou-se diante do espelho, mirou de um lado, de outro, distanciou, aproximou. Admirou o bigode. Mas uma ruga de incômodo marcou a meditação. Percebeu um fio, uma ameaça rebelde a levantar-se contra a ordem unida. Nem pestanejou, decidiu imediatamente. Antes de qualquer outra providência, passaria no Porfírio. Abriu as janelas, olhou o horizonte, sondou o céu para ver a disposição das nuvens. Precisaria casaco? Guarda-chuva? Desceu para a Praça da Repú...

Cheiro de sonho

— Se aquele guarda não me segurasse, eu tinha pulado daquela pedra — vangloriava-se um dos guris. Clarinha, ainda um tanto assustada, contava como quase foi levada por uma onda. Meninas e meninos falavam alto, riam, trocavam fotos. Imitavam mergulhos no mar, descreviam as ondas, o vento, a areia, os siris. A praia da Joaquina era um mundo encantado na Ilha da Magia. Vevê observava de longe, encostado num canto do pátio da escola, olhos baixos, boca cerrada, lutando para não deixar escapar a frustração. Ele não foi no passeio do colégio. Os outros tinham conchinhas, ele, calos. — Não tenho dinheiro pra pagar excursão nenhuma — o pai foi definitivo, não houve jeito. — Além disso, tem as galinhas, os porcos, a vaca prenha. E u preciso de você aqui.  Não discutiu, jamais discutia. Mas, por dentro, não havia como segurar o ressentimento. Enquanto os outros narravam aventuras ensolaradas, Vevê lembrava o cheiro do curral, o balde pesado com água, o mugido da vaca. Olhos atentos, força n...

Uma TV usada

(Delman Ferreira) Severino é um desses milhões de brasileiros e brasileiras esculpidos em terra esturricada … pelo sol inclemente … na chuva… no vento… no dia-a-dia desesperançoso. Homens e mulheres de extrema economia de palavras, jamais deixando escapar qualquer vestígio  de seus sentimentos.  Severino conseguia ser espontâneo apenas com os animais.  A experiência daquele dia, porém, foi incontrolável e inesquecível. Entrou em casa de surpresa com uma televisão usada, trocada com um primo da cidade por uns trabalhinhos. Quando ligou a TV e apareceram as primeiras imagens, viu nos olhos dos filhos e da mulher uma felicidade nunca estampada. Recebeu o apertado abraço de bracinhos tornados incontroláveis pela alegria. Severino não resistiu. Por seu rosto curtido rolaram indisfarçáveis lágrimas — não de fraqueza, mas de vitória; não de tristeza, mas de um orgulho tão intenso que mal cabia no peito. Tempos atrás, pelo rádio ou de boca em boca, apareceram propagandas do gover...

Por trás de montanhas, há mais montanhas

(Delman Ferreira) Maria Fumaça. De Tiradentes a São João Del Rei. Minas Gerais. 50 minutos de viagem.  Dois séculos transitam naqueles bancos de madeira — estreitos, duros, desconfortáveis. Um portal no tempo. A Maria Fumaça transportava os sonhos, as obrigações e recomendações de sinhozinhos e sinhazinhas, recém saídos da meninice, levados para a cidade grande. Estudar — deixar pra trás as vadiagens da infância e as amizades pueris. Serão os novos barões e baronesas. Aquela mesma Maria Fumaça, em vagões ainda menos confortáveis, também transportava esperanças e desesperanças daqueles a quem só restava abandonar a família e os amigos, suas próprias histórias, suas vidas, seus trens. Rumo ao desconhecido. Meninos e meninas em fuga da servidão. Gente sofrida atrás de cura para males implacáveis.  O ventre daquela Maria carregava artistas, doutores, presidentes. Futuras frustrações e futuros campeões. Um Brasil escrito sobre trilhos. Orgulhosa e imponente, a velha senhora anu...

Manda quem pode, obedece quem tem juízo

(Delman Ferreira) Cláudio, meu amigo soteropolitano, volta e meia conta histórias da Bahia que flertam com o realismo fantástico. Tragédia de proporções bíblicas. Incêndio na fábrica de explosivos. Estrondo tão forte que até os defuntos tremeram. Incontáveis feridos. Uma centena de mortos. Não havia hospital. Nenhum transporte capaz de levar tanta gente até outros centros. Ninguém sabia o que fazer. Perdeu-se o controle por completo. Suando frio, bigode retorcido, o despreparado prefeito, espremia a cabeça tentando lembrar de alguém para controlar a situação. — Sargento Trovão!  — soprou uma voz — Ele vai dar um jeito. Naquela região, Trovão era um gigante. O mais alto da cidade, negro, braços e pernas como troncos. Na verdade, nunca foi militar, nem sargento, nem recruta — escapou do quartel por graça do pé-chato. Ganhou o apelido pela voz tonitruante e a forma autoritária de se expressar. Sempre dando ordens, sempre trovejando. Não admitia ser questionado.  — Não me ven...

Alfinete

  (Delman Ferreira) Alfinete não era um simples jogador. Chamá-lo de artista também não dava a dimensão de sua capacidade de enlear e atordoar os adversários, encantar a torcida, mesmo os contrários, ou fazer jogadas desafiando a ciência. Meio-campista refinado, cerebral, elegante, cabeça erguida, peito aberto, olhos antevendo o pensamento do adversário. A bola, acariciada, compreendia e cumpria seus comandos com prazer e fervor. — Alfinete, quantas vezes já te disse, corre, penetra pela direita! — Técnicos desesperados perdiam a voz tentando fazê-lo correr atrás da bola. — Mas, Professor, quem precisa correr é a bola e ela vai onde eu quero. Passes curtos e rápidos. Ou cruzamentos longos, através de campos e tempos. Sabia onde estariam os colegas, antecipava, colocava a bola como um míssil, no ponto exato para o companheiro explodir rumo ao gol. — Então, se era tão bom, onde foi parar? Porque nunca se ouviu falar dele? — Ah! Temos aí mais uma das tantas histórias de profecias atro...

Vale mais um gosto do que dois vinténs

 (Delman Ferreira) O Pai do Warnel fazia o melhor Mocotó do mundo… e arredores. Havia um acordo com os orixás: todo aniversário ele preparava paneladas de Mocotó e chamava o Morro. Não sei se por exigência dos santos ou outra razão secular, a única bebida permitida era vinho tinto doce. Para driblar o vinho doce, picávamos limão e colocávamos gelo. — ...e seja o que Deus quiser! Alquimia, samba, mocotó, uma ou outra azaração, muitas certezas e muita discussão. Debatiam-se os destinos da Humanidade – e futebol, claro. Numa daquelas, quando o debate já alcançava elevados decibéis, alguém veio com a informação de que o mocotó era extraído do tutano das patas, ou melhor, do casco do boi. E cada boi fornecia uma quantidade muito reduzida. Diante do inigualável Mocotó do Pai do Warnel, essa informação encheu nossas certezas de dúvidas. Afinal, se os bois sofressem alguma gripe, poderíamos ter escassez. A falta de mocotó estremeceria as estruturas da sociedade. — Sem colágeno,...

Cabeça de porongo

(Delman Ferreira)            Ademir trouxe as frutas e verduras para Dona Gertrudes. Como fazia toda semana, ela lhe ofereceu um pão e um copo de café. Enquanto aguardava na porta da cozinha, ele ficou observando o quintal. Outros meninos da mesma idade jogavam futebol.  O olhar ficou preso na bola rolando no chão batido. Aos poucos, a imaginação voou. Ademir não era mais um entregador de verduras de 11 anos. Era Ronaldinho.  Prepara-se para bater uma falta. A torcida faz tremer o estádio. O goleiro apronta a barreira. Ele ajeita a bola. Olhos nos olhos da defesa. Observa o canto superior da trave. Calcula a posição do sol. A direção do vento. Conta passos para trás. O juiz apita. Como mágica, o silêncio toma conta do estádio. Ninguém ousa nem respirar. Ele avança como uma onça. Chuta alto. A bola sobe em direção ao céu. Enfeitiçada, desce de repente. No ângulo. Contrapé do goleiro. Impossível alcançar. A torcida explode como se o mundo fosse...

Gaiola dourada, bola murcha, riso solto

(Delman Ferreira) Joaquim Carneiro Leão de Oliveira e Silva cresceu cercado de ouro. Nada lhe faltava. Tudo parecia existir apenas para ele. Havia um exército de servidores sempre prontos a satisfazer qualquer capricho. Babás, motoristas, professores, nutricionistas, terapeutas - profissionais à disposição 24 horas por dia. Carros blindados. Clubes privados. Mundo inexpugnável.  Aos treze anos, o vazio. Passou a sentir como se nada fosse natural ao seu redor. Os sorrisos eram mecânicos, os sentimentos coreografados, carinhos agendados. Palavras submissas, olhares subservientes. — Muito bem, senhor Joaquim, o senhor nunca deixa de nos surpreender. Cada pincelada contém leveza e profundidade — os elogios soavam sem vida, sem emoção, como flores de plástico. Não conhecia o peso da espera, o susto da perda, a decepção da negativa, o esforço da conquista. Ao sinal mais imperceptível, seus desejos eram satisfeitos. Negaram-lhe a dor, a frustração, a incerteza.  Descobriu a dor de nã...

Sonhar com zebra da jacaré da boca grande

  (Delman Ferreira) Depois do futebol das quartas, entre caixas de cerveja e arroubos de teorias conspiratórias, a resenha seguia acalorada. O tema da vez era o Jogo do Bicho, assunto sagrado como discutir convocação da seleção. — Só não joga no Bicho quem vive na ilusão de ver o salário vencer o final do mês. — afirmava Cacau com irônico ceticismo.  — No Bicho só quem ganha é a banca, não tem jeito! — decretou Paulão, com a solenidade de quem cita um evangelho. Ouviam-se os costumeiros jargões e havia quem jurava conhecer o tio-do-vizinho-de-um-amigo capaz de acertar toda semana. — Aposto como tem algum jeito de ganhar da banca — rebateu Sérgio, limpando a espuma da boca com o dorso da mão. — É só programar um sistema pra driblar as regras. Ao seu lado, Tadeu, parceiro de TI, futebol e cerveja, concordou fazendo sinal de positivo com o dedo e acenando a cabeça. Os dois trabalhavam no setor de informática de uma multinacional com quase cinco mil trabalhadores, dessas com a...