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Alfinete

  (Delman Ferreira) Alfinete não era um simples jogador. Chamá-lo de artista também não dava a dimensão de sua capacidade de enlear e atordoar os adversários, encantar a torcida, mesmo os contrários, ou fazer jogadas desafiando a ciência. Meio-campista refinado, cerebral, elegante, cabeça erguida, peito aberto, olhos antevendo o pensamento do adversário. A bola, acariciada, compreendia e cumpria seus comandos com prazer e fervor. — Alfinete, quantas vezes já te disse, corre, penetra pela direita! — Técnicos desesperados perdiam a voz tentando fazê-lo correr atrás da bola. — Mas, Professor, quem precisa correr é a bola e ela vai onde eu quero. Passes curtos e rápidos. Ou cruzamentos longos, através de campos e tempos. Sabia onde estariam os colegas, antecipava, colocava a bola como um míssil, no ponto exato para o companheiro explodir rumo ao gol. — Então, se era tão bom, onde foi parar? Porque nunca se ouviu falar dele? — Ah! Temos aí mais uma das tantas histórias de profecias atro...

Vale mais um gosto do que dois vinténs

 (Delman Ferreira) O Pai do Warnel fazia o melhor Mocotó do mundo… e arredores. Havia um acordo com os orixás: todo aniversário ele preparava paneladas de Mocotó e chamava o Morro. Não sei se por exigência dos santos ou outra razão secular, a única bebida permitida era vinho tinto doce. Para driblar o vinho doce, picávamos limão e colocávamos gelo. — ...e seja o que Deus quiser! Alquimia, samba, mocotó, uma ou outra azaração, muitas certezas e muita discussão. Debatiam-se os destinos da Humanidade – e futebol, claro. Numa daquelas, quando o debate já alcançava elevados decibéis, alguém veio com a informação de que o mocotó era extraído do tutano das patas, ou melhor, do casco do boi. E cada boi fornecia uma quantidade muito reduzida. Diante do inigualável Mocotó do Pai do Warnel, essa informação encheu nossas certezas de dúvidas. Afinal, se os bois sofressem alguma gripe, poderíamos ter escassez. A falta de mocotó estremeceria as estruturas da sociedade. — Sem colágeno,...

Cabeça de porongo

(Delman Ferreira)            Ademir trouxe as frutas e verduras para Dona Gertrudes. Como fazia toda semana, ela lhe ofereceu um pão e um copo de café. Enquanto aguardava na porta da cozinha, ele ficou observando o quintal. Outros meninos da mesma idade jogavam futebol.  O olhar ficou preso na bola rolando no chão batido. Aos poucos, a imaginação voou. Ademir não era mais um entregador de verduras de 11 anos. Era Ronaldinho.  Prepara-se para bater uma falta. A torcida faz tremer o estádio. O goleiro apronta a barreira. Ele ajeita a bola. Olhos nos olhos da defesa. Observa o canto superior da trave. Calcula a posição do sol. A direção do vento. Conta passos para trás. O juiz apita. Como mágica, o silêncio toma conta do estádio. Ninguém ousa nem respirar. Ele avança como uma onça. Chuta alto. A bola sobe em direção ao céu. Enfeitiçada, desce de repente. No ângulo. Contrapé do goleiro. Impossível alcançar. A torcida explode como se o mundo fosse...

Gaiola dourada, bola murcha, riso solto

(Delman Ferreira) Joaquim Carneiro Leão de Oliveira e Silva cresceu cercado de ouro. Nada lhe faltava. Tudo parecia existir apenas para ele. Havia um exército de servidores sempre prontos a satisfazer qualquer capricho. Babás, motoristas, professores, nutricionistas, terapeutas - profissionais à disposição 24 horas por dia. Carros blindados. Clubes privados. Mundo inexpugnável.  Aos treze anos, o vazio. Passou a sentir como se nada fosse natural ao seu redor. Os sorrisos eram mecânicos, os sentimentos coreografados, carinhos agendados. Palavras submissas, olhares subservientes. — Muito bem, senhor Joaquim, o senhor nunca deixa de nos surpreender. Cada pincelada contém leveza e profundidade — os elogios soavam sem vida, sem emoção, como flores de plástico. Não conhecia o peso da espera, o susto da perda, a decepção da negativa, o esforço da conquista. Ao sinal mais imperceptível, seus desejos eram satisfeitos. Negaram-lhe a dor, a frustração, a incerteza.  Descobriu a dor de nã...

Sonhar com zebra da jacaré da boca grande

  (Delman Ferreira) Depois do futebol das quartas, entre caixas de cerveja e arroubos de teorias conspiratórias, a resenha seguia acalorada. O tema da vez era o Jogo do Bicho, assunto sagrado como discutir convocação da seleção. — Só não joga no Bicho quem vive na ilusão de ver o salário vencer o final do mês. — afirmava Cacau com irônico ceticismo.  — No Bicho só quem ganha é a banca, não tem jeito! — decretou Paulão, com a solenidade de quem cita um evangelho. Ouviam-se os costumeiros jargões e havia quem jurava conhecer o tio-do-vizinho-de-um-amigo capaz de acertar toda semana. — Aposto como tem algum jeito de ganhar da banca — rebateu Sérgio, limpando a espuma da boca com o dorso da mão. — É só programar um sistema pra driblar as regras. Ao seu lado, Tadeu, parceiro de TI, futebol e cerveja, concordou fazendo sinal de positivo com o dedo e acenando a cabeça. Os dois trabalhavam no setor de informática de uma multinacional com quase cinco mil trabalhadores, dessas com a...

Francês de estimação

(Delman Ferreira)  Não atendia aos padrões comerciais de beleza masculina, mas o forte sotaque afrancesado o cobria com  charme irresistível e se impunha sobre qualquer outro quesito. Dizia ser proveniente da pequena cidade de Metz, no nordeste da França.       — A região ainda guarda traços de colonização romana. Encravada entre Alemanha, Bélgica e Luxemburgo, uma encruzilhada de culturas refinadas — gostava de dizer com sotaque cheio de biquinhos e acentuação nos finais das palavras. Ninguém sabia direito onde ficava Metz, mas soava tão francês quanto chique. Jean Pierre, com cachecóis leves no pescoço e sotaque cativante, aparecera como quem vinha de um mundo superior. Chegava aos lugares com passos suaves e elegância estudada. Ainda não alcançara os trinta anos, mas já se dizia experiente em gastronomia, política europeia, filosofia existencialista e vinhos. Não raro confundia Sartre com Voltaire, ou citava memes de internet como se fossem pura Sim...

Briga de escorpiões é prenúncio de bom tempo

(Delman Ferreira) Os Mercúcio, donos de terras, do gado, mercados, escolas, da rádio e até do alto-falante na Praça da Matriz. Os Tebaldo controlavam contratos públicos, transportes, postos de saúde, a fábrica de cimento que enchia de poeira os pulmões dos moradores, a outra rádio e o alto-falante na Praça do Mercado. Desde tempos imemoriais viviam em trégua silenciosa, repartindo votos, mandos e desmandos. Trocavam favores, casavam os filhos, revezavam-se no poder. Ninguém conseguia viver sem ser benzido por uma das famílias. Comércio? Negócios? Só os autorizados. Empregos? Fossem porteiros, coveiros, vigilantes, professores, prefeitos, deputados, secretários, párocos, pastores, magistrados, todo e qualquer cargo público era tratado como propriedade de Mercúcios e Tebaldos. Não havia regulamentos, placas, cercas ou avisos. Apenas olhares, silêncios, vieses calados. Regras não ditas, porém, ninguém desconhecia. As pessoas portavam-se com cautela, como se dependessem de autorizaçã...

Café preto com pão e manteiga

(Delman Ferreira) Chegou numa terça-feira à tarde. Sem alarde, sem bagagem, sem passado. Apenas entrou e sentou-se no canto mais afastado. Aceitou o cardápio que a garçonete lhe ofereceu.  Com gestos simples, e scolheu dois itens,  café preto e pão com manteiga. Nada disse. Serenidade que beirava o enigma. Leu  os dizeres no espelho atrás do balcão : Café Fecundo, aqui se pratica a nobre arte de jogar conversa fora. Desde então, passou a frequentar o mesmo Café, no mesmo horário. Sempre calado, lia jornais, rabiscava um caderno surrado. Se alguém o cumprimentava, sorria com aceno mínimo, educado, impenetrável. Jamais emitia uma palavra. O silêncio travestiu-se de mistério. — Tem um quê de artista europeu — murmurou Clara, garçonete do turno da tarde. — Parece mais jeito de exilado, um revolucionário — arriscou Sônia, professora aposentada, certa de que o silêncio era típico de um passado político. — Olhar de quem já sofreu por amor — sussurrou a adolescente Betina, ...

Alguma coisa errada não está certa

(Delman Ferreira) Cris conversava com Tina que, além de irmã mais velha, é a melhor amiga. — Ele anda estranho, arisco, meio escabreado. — Como assim?! — pergunta a irmã, com expressão curiosa. Ramiro, que sempre ria alto, andava agora recolhido, como se carregasse um segredo pesado. — Anda de segredinhos. Antes, sempre deixava o celular aberto, nem tinha senha. De uns dias para cá, atende falando baixinho ou apaga as mensagens assim que lê. — Ramiro continua apaixonado por ti, disso ninguém duvida. Tu estás vendo coisas.  — Também pensei que fosse da minha cabeça. Tipo insegurança de quem está fazendo quarenta e não quer saber de falar nisso. Até descobrir um fio de cabelo no paletó dele, comprido, loiríssimo. — Tens razão, isso é estranho. Mas vai com cuidado, não faz nenhum escândalo sem saber de tudo direitinho.  — Não sei se vou me segurar. — Faz o seguinte, se houver coisa escondida, ele vai se entregar. Vai inventar alguma desculpa furada pra sair sozinho. Quando ele fi...

Um Corpo Nu

De repente, todos os olhos se fixam em mim. Mas não fiz nada além de existir como a natureza me moldou. Pés descalços, corpo nu, pele beijada pelo sol e pelo vento. Assim vivi desde sempre. — Você deve adorar a Deus — dizem, ajoelhando-se diante de paus cruzados e palavras severas. — Você deve servir ao rei — insistem, empunhando bandeiras que tremulam no vazio. Ouço, mas não compreendo. Por que me curvar diante de quem nunca vi? Por que falar com o céu, se a terra me responde com frutos, os rios com peixes, a chuva com água fresca e a lua me guia em silêncio? — Você não pode andar nu — repetem, olhos inquietos. Tentam cobrir meu corpo com trapos ásperos, como se quisessem me vestir de culpa. Nunca soube o que era pecado até dizerem que meu corpo ofende. Respeitei a natureza como mãe, casa, companheira. Comi quando tive fome, bebi quando tive sede, dormi com os animais. Nenhum deles exigiu mais que presença e cuidado. Agora, querem me pôr entre paredes que abafam o canto dos pássaros. ...