Será o Benedito?

 (Delman Ferreira)

— Passados tantos anos, já com meus cabelos brancos, ainda ouço a voz do velho Anacleto, como um chamado.

Na vila de São Romualdo, ninguém sabia ao certo quando começara aquela mania de invocar o nome de Benedito sempre que algo dava errado. Quando a colheita atrasava, o filho respondia torto ou o rio enchia antes da hora, lá vinha alguém resmungando:

— Mas será o Benedito?

De tanto se repetir, ficou natural. O motivo se perdeu no tempo. Até que um dia o velho Anacleto, o mais teimoso guardião da memória, resolveu contar a história como os anciãos passaram para ele.

A noite cintilava profunda. Tudo era silêncio, menos o velho Anacleto, que falava com a voz raspando no escuro.

— Shhh..., quietos. Essa história não gosta de barulho.

Os corpos se juntaram, sombras dentro de sombra. Eu, menino, perguntei:

— É a do Benedito, tio Anacleto?

O velho sorriu sem mostrar dentes.

— Ele mesmo… Benedito Meia-Légua foi homem de carne, coragem e cicatrizes. Nasceu preso, mas o espírito dele nunca aceitou ferro. Cresceu no cativeiro, mas com a cabeça rebelde e o olhar atento.

— Esse tem o demônio da esperteza — praguejavam os feitores.

Um estalo de madeira soou ao longe. Todos prenderam a respiração.

— Quando começou a libertar gente, foi sem alarde. Escolhia uns cinco, seis de confiança. Vestia todos igualzinho a ele: chapéu de palha encobrindo o rosto e fazendo sombra, pano vermelho no braço, o mesmo jeito de pisar no mato. No escuro… era como se Benedito se multiplicasse.

Como se fosse ensaiado, todos puxaram o ar, baixinho.

— Quando chegava a noite da fuga — continuou Anacleto — o mato ficava cheio de Beneditos. Um passando pelo riacho, outro pela trilha, outro pelo capim baixo. Os capitães-do-mato, homens acostumados a caçar gente, viam aquele pano vermelho e tremiam feito meninos.

O velho baixou ainda mais a voz:

— Alguns diziam que era coisa de Exu. A força de Benedito não podia ser só desse mundo. Exu ajudava a destravar os caminhos.

  Esse negro — murmuravam — só pode ter santo forte por trás. Não pode um homem virar tantos.

A moça junto à porta respirou fundo. Mexeu-se na esteira, o cheiro de palha úmida se espalhou e tocou o nariz de Anacleto.

— E era medo, viu. — disse o velho. — Medo verdadeiro. Quando perseguiam uma sombra, outra aparecia atrás… quando o rastro sumia… quando escutavam passo onde não tinha ninguém… eles suavam frio e repetiam com a voz trêmula:

— Será o Benedito?

Um riso miúdo se espalhou pelo chão de barro.

— Enquanto isso — Anacleto prosseguiu — o Benedito real levava os nosso longe, para o quilombo. Livres. E os outros, vestidos como ele, confundiam até o dia amanhecer.

— Pegaram algum? — arriscou o menino.

O velho suspirou.

— Pegaram. Mas nenhum deles entregou o rumo. Morriam firmes, sabendo por quem valia a pena.

Silêncio. Um silêncio com pulso.

— Lembrem-se: para os brancos, Benedito era o terror, era tudo de errado. Para nós, Benedito era Exu abrindo os caminhos da Liberdade.  

Respiração de quem inspira esperança. Quietinha, como se a própria noite estivesse ouvindo.

A fogueira soltava estalos no sereno. Naquela noite, todos sonharam que não era só história. 

Benedito vigiava e abria caminhos.

Comentários

  1. Uma bela explicação para o "Será o Benedito" que comecei a ouvir ainda menino, como os do conto, sem nunca saber o significado.

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