O poder roubado dos deuses
(Delman Ferreira)
Há sete luas, antes do sol nascer, em silêncio como quem foge, Odé saiu com os outros homens para caçar.
Iriam mais longe, atrás de caças maiores, rastros mais raros. Prometiam voltar na lua seguinte.
As mulheres aprenderam a não esperar. Dividiam o dia entre buscar água, vigiar e espantar predadores. Comiam os restos da caçada anterior. À noite, alimentavam o fogo e embalavam os erês com histórias antigas — histórias de homens heróis e deuses generosos.
O silêncio foi ocupando o lugar das promessas.
Havia sol e chuva. Havia ventos e riacho com água. Havia o medo. E sempre muita fome.
Para acalmar a fome e os gritos dos erês, Iya decidiu pegar frutos de árvores. Experimentou uma, outra e outra. Até encontrar aquelas que deixavam as crianças com a cara encharcada de risos. Depois, sentavam-se ao redor do fogo para catar umas às outras em silêncio.
Aprenderam a colher, a sentar, a comer sem pressa. O medo foi sendo trocado por histórias. As crianças lambiam os dedos. As mulheres sorriam sem perceber. As cascas, as sementes, as sobras ficavam ali, misturadas à terra.
Luas vão, luas voltam. Odé e os homens não aparecem.
Iya e as outras mulheres continuaram a buscar comida e a fazer rodas de alegria. Entretanto, apesar de ser o mesmo riacho, seguro e conhecido, a cada lua tudo parecia mudar. Plantas que antes não estavam ali entremeavam-se nas pedras e engravidavam a várzea com nova vida. Cresciam e se exibiam onde antes era apenas terra barrenta.
Iya percebeu a semelhança entre as folhas que haviam comido e aquelas que brotavam da terra. Ficou cismada. Enfiou os dedos com cuidado, sentiu o pulsar, não era apenas terra.
Mulheres e crianças corriam, riam, falavam, riscavam o chão imitando os contornos das sombras. Alegres, sem nada incomodar. Apenas Iya não parecia tão alegre.
— Que passa Iya? — quis saber Àgbà, a mais idosa, lendo o olhar perdido e a testa franzida.
Iya mexia as mãos, tentava explicar, mas não sabia como dizer, ainda não compreendia direito o que havia percebido. Ali havia um mistério sem nome.
— O que a boca cospe, a terra guarda. — Àgbà ensinou.
Iya balbuciou, apontou, até conseguir fazer as outras perceberem que as plantas apareceram no mesmo local onde, algumas luas antes, haviam jogado sobras do que comeram.
Admiração. Alegria. Dúvidas. Receio. Mais perguntas do que respostas. Algumas mulheres preferiam reforçar a tese de que os deuses mandaram as plantas nascerem ali, como faziam nascer em todos os lugares. Outras duvidavam. Preferiam acreditar em Iya, mesmo temendo a reação dos deuses.
Enquanto seguiam as dúvidas e as teses, Iya juntou os restos do que acabaram de comer e foi para um local ermo, no outro lado do riacho. Ali, ergueu os olhos para o sol e o horizonte, acariciou a terra, como a pedir licença. Espalhou aquelas sobras com cuidado, observando onde caiam.
Antes de sair para colher novas folhas e frutos, passava para observar o local. Percebeu pequenas folhas se insinuando, desafiando a terra, pedindo ajuda para ver o sol. Era costume entre as mulheres molhar as crianças quando nasciam. Iya imaginou que água deveria ser uma boa ajuda para a nova vida. Apanhou na concha das mãos e molhou uma a uma as plantinhas que se arriscavam a vencer o escuro da terra.
Iya e as mulheres encantaram-se com os mistérios das plantas.
Os homens lembraram-se de suas mulheres sozinhas com as crias. Imaginaram que as sobras da caça anterior já deveriam ter acabado ou apodrecido. Elas precisavam de novas provisões. Deveriam estar desesperadas de fome. Então, decidiram voltar.
Ao chegar, Odé estacou. Nenhum dos homens quis acreditar. Silêncio preencheu a aldeia.
Esperavam corpos fracos, olhos fundos, o choro surdo da fome. Em vez disso, encontraram mulheres de pés firmes e crianças correndo soltas, rindo alto. Algo lhes tocou o peito como ofensa. Sempre acreditaram carregar nos ombros o peso da sobrevivência, trazer da caça a força que mantinha a vida. Ver caras alegres, olhinhos felizes, de pé, sem precisar deles — não lhes pareceu milagre, pareceu afronta.
Chamaram os homens para ver as folhas e as frutas. Iya apanhou uma fruta e insistiu para Odé comer.
O estrondo de um relâmpago encheu de faíscas o silêncio dos homens. Trocaram olhares temerosos. Alguns apontaram as armas, outros tocaram a terra em gesto vagaroso.
Disseram que aquilo era bondade antiga dos deuses.
Trabalho simples.
Sem força. Nem flecha.
Decidiram que, para não enfurecer os deuses, cabia a eles dizer quando plantar, quando colher, quando agradecer.
Iya não respondeu. Continuou a jogar as sementes e regar as folhas, uma a uma. Sabia que a terra não escuta quem ordena — apenas quem cuida.
Desde então, ao redor das fogueiras, homens contam uns para os outros como roubaram dos deuses o poder de lutar contra o dragão da fome.
As mulheres, em silêncio, sabem o contrário.
A terra, nas entranhas da memória, também.
Que texto lindoooo. Amei demais.
ResponderExcluirÉ bem verdade que até hoje, a despeito das agruras e 'certezas' trazidas pelo agronegócio, no interior do imenso Brasil o trabalhador e a trabalhadora rural sabem bem que "... para não enfurecer os deuses" (...), mas principalmente para ter boa colheita "os deuses" e a música Iansã (Caetano Veloso e Gilberto Gil) nos lembram que a "Senhora das nuvens de chumbo
ResponderExcluirSenhora do mundo dentro de mim
Rainha dos raios
Rainha dos raios
Rainha dos raios
Tempo bom, tempo ruim" (...) está por aí a indicar o "tempo" das coisas.
Assim é, com deuses, rainhas, senhoras, guerreiras, mulheres, protetoras, amadas, amantes e "donas da cultura popular" que sabe "da chuva, dos ventos e do sol" e esse amálgama indica "quando plantar, quando colher, quando agradecer."