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Mostrando postagens de janeiro, 2026

Será o Benedito?

 (Delman Ferreira) — Passados tantos anos, já com meus cabelos brancos, ainda ouço a voz do velho Anacleto, como um chamado. Na vila de São Romualdo, ninguém sabia ao certo quando começara aquela mania de invocar o nome de Benedito sempre que algo dava errado. Quando a colheita atrasava, o filho respondia torto ou o rio enchia antes da hora, lá vinha alguém resmungando: — Mas será o Benedito? De tanto se repetir, ficou natural. O motivo se perdeu no tempo. Até que um dia o velho Anacleto, o mais teimoso guardião da memória, resolveu contar a história como os anciãos passaram para ele. A noite cintilava profunda. Tudo era silêncio, menos o velho Anacleto, que falava com a voz raspando no escuro. — Shhh..., quietos. Essa história não gosta de barulho. Os corpos se juntaram, sombras dentro de sombra. Eu, menino, perguntei: — É a do Benedito, tio Anacleto? O velho sorriu sem mostrar dentes. — Ele mesmo… Benedito Meia-Légua foi homem de carne, coragem e cicatrizes. Nasce...

Além do esplendor

 (Delman Ferreira) O sol batia forte no calçamento de pedra, mas dentro do museu o ar era gélido, filtrado por um sistema de climatização invisível e silencioso. Danilo acompanhava o grupo de amigos com um sorriso protocolar, típico de quem aceita um passeio apenas pela conveniência da companhia. O M usée de la Haute Couture  erguia-se com a solenidade de um templo, vidro e mármore, flores e folhagens, refletindo uma ideia de eternidade cuidadosamente polida.  Entrou sem expectativa, conduzido pelo fluxo lento dos visitantes, todos atentos à promessa de beleza suspensa no tempo. Os primeiros corredores exibiam vestidos do século XIX, engomados e rígidos como armaduras. Danilo passava por eles com indiferença, lendo mecanicamente as plaquinhas:  "Vestido de baile, 1867. Seda, brocado de fios metálicos, renda de Chantilly aplicada à mão." Foi na sala dos anos 1920 que o desconforto começou, sutil como um fio desfiado. Um vestido de franjas de cristais cintilava s...

Praia do Riso

  (Delman Ferreira) O mar aguarda em poética calma enquanto o Nordestão se retira para a entrada do Vento Sul, sempre visceral.  O céu, azul de Leste a Oeste e de Norte a Sul, reflete a expectativa da Praia do Riso. Hoje será a vez do Deivide.  Os meninos mais velhos já têm tudo combinado. Cada um deles havia passado pelo mesmo rito. Aproveitam a calma na virada da maré, colocam o batelão na água. Feliz por ser chamado para pescar com os mais velhos, Deivide senta na proa, com todos os seus quase oito anos. Desequilibra-se, mas controla rápido. Não vai deixar o nervosismo estragar esse momento. João, sarará, alto para seus 11 anos. Cesar, franzino, mãos e pés ligeiros. Entreolham-se e empurram o batelão para o fundo. Com agilidade e equilíbrio, saltam para dentro do estreito barco. I nspirados pela calma da maré,  remam com suavidade. Conversam. Deivide ri. A tensão vira gargalhada. Cada vez mais longe da praia. O orgulho de ter sido chamado pelos mais ve...

O poder roubado dos deuses

 (Delman Ferreira) Há sete luas, antes do sol nascer, em silêncio como quem foge, Odé saiu com os outros homens para caçar. Iriam mais longe, atrás de caças maiores, rastros mais raros. Prometiam voltar na lua seguinte. As mulheres aprenderam a não esperar. Dividiam o dia entre buscar água, vigiar e espantar predadores. Comiam os restos da caçada anterior. À noite, alimentavam o fogo e embalavam os erês com histórias antigas — histórias de homens heróis e deuses generosos. O silêncio foi ocupando o lugar das promessas. Havia sol e chuva. Havia ventos e riacho com água. Havia o medo. E sempre muita fome. Para acalmar a fome e os gritos dos erês, Iya decidiu pegar frutos de árvores. Experimentou uma, outra e outra. Até encontrar aquelas que deixavam as crianças com a cara encharcada de risos. Depois, sentavam-se ao redor do fogo para catar umas às outras em silêncio.  Aprenderam a colher, a sentar, a comer sem pressa. O medo foi sendo trocado por histórias. As crianças lambiam o...