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Mostrando postagens de dezembro, 2025

A ruína de Brisal

 (Delman Ferreira)           Brisal já fora uma terra vibrante. Havia cafés literários, feiras de poesia, saraus aveludavam as noites, crianças embaladas à voz de histórias.  Ninguém sabe dizer quando os livros começaram a pesar. Primeiro veio o gracejo. — Ler dá sono. Depois, o carimbo marginalizante. — Poeta é quem não tem o que fazer. O riso, aos poucos, perdeu a inocência. Quem andava com um livro debaixo do braço virou alvo. — Olhem o cabeça de papel! — Vai tropeçar no mundo real! As páginas empoeiraram. Os jovens,  corcundas diante de telas fugazes,  preferiam pílulas de  lobotomia brilhante. As mochilas se esvaziaram de histórias. A interpretação deu lugar aos memes. Livros tornaram-se estorvo.   Professores que insistiam na leitura passaram a ser tratados como perdedores — relíquias inúteis. Em uma geração, a leitura tornou-se obsoleta. Escrever? Rabiscos sem sentido. Uma noite,  a bateria descarregou. E ntão,...

Praeiudicium

(Delman Ferreira) — Não tenho amigos negros, gays, indígenas, feministas ou esquerdistas... A luz trepidou. Bomba de incontáveis megatons explodiu as redes sociais. Xingamentos instantâneos digitados entre um piscar e outro, cancelamentos decretados por perfis inominados, marchas virtuais de protesto. Socialaites enfurecidas, influencers ensandecidos. Comentaristas espumam argumentos reciclados. Suas excelências exigem condenação perpétua. Ungidos conclamam exércitos dos céus e dos infernos. Gente que atravessa a rua quando vê um pobre, um negro ou alguém de vermelho,  aproveita   para purgar os pecados. Quando baixou a poeira radioativa, ele conseguiu completar a frase. — ...meus amigos são pessoas!

Carrinho no presépio

 (Delman Ferreira) — Deus é o pai de todas as crianças. Todos somos filhos de Deus — dizia Irmã Bernardete, professora de catecismo. Aquela revelação entrou pelos ouvidos de Daniel e escorregou direto ao coração. Depois, explodiu e se transformou num sorriso, como fogos de artifício. — Então, também tenho pai! Filho de mãe solteira, Daniel sentia falta de um pai. Todos os amiguinhos falavam do pai ensinando, ajudando, defendendo. E dando presentes legais. Morria de inveja quando ouvia algum amigo contar uma bronca. Sonhava com um pai brigando e brincando. Se Irmã Bernardete diz, deve ser verdade. Ela é freira, não ia mentir. Eu também tenho pai para me proteger. Até pedir brinquedo de presente. Chega o Natal, Daniel é só expectativa. — Eu quero um carrinho de controle — sonhava Daniel. Escreveu um bilhete e entregou para Irmã Bernardete. Pediu para entregar ao pai. Ela saberia como falar com ele. Sonhou, noite após noite. Quase não dormia, só imaginando a reação dos amigos e as cor...

Desvendando um grande mistério

  (Delman Ferreira) Brincava com Ben, meu neto de 4 anos. Voar como o Homem-de-ferro. Eu o pegava no colo, meus braços segurando o peito e as pernas, cabeça para a frente, pés para trás, e jogava na cama num voo magistral, tal qual um super-herói. A mãe não sabia se ria junto ou se salvava o filho do avô irresponsável. A cama gemia, mas aguentava firme. A cada vôo sensacional, nós dois desatávamos o risador. Ele se pendurava no meu pescoço e, daquele jeito irresistível, gritava: — De noooovo! — Aquela energia inesgotável. Até perceber que ele estava com vontade de fazer xixi, mas não queria parar a brincadeira. — Ben, tás com vontade de fazer xixi? Vai lá fazer xixi. — Não, não tô com vontade. — Sabia que super-herói também faz xixi? Ele vai voando até o banheiro e faz xixi. — Nãããooo, super-herói não faz xixi. — Claro que faz, ele bebe água e come comida, então ele faz xixi e coco. — Nãããooo, ele não come e não bebe água. — Claro que come, senão como é que ele fica forte? — Vô, tu...

O pecado de Adão

   (Delman Ferreira) Aprendeu a andar.  O mundo passou a não ter tamanho. O quintal.  Galinhas e latidos. Carrinhos. Estripulias. A rua.  Frutas do vizinho. Bombinhas. Bola. Passarinhos. Viver era explorar horizontes. Mas vieram as aulas de religião. Adão descobriu-se nu.  O maior pecador do mundo.